Quarta-feira, 04.04.12

 

Ah, Branca de Neve.

Que conto de fadas tão bonito. Lembram-se daquela parte em que o Caçador, adulto, não consegue matar a Branca de Neve por quem se apaixonou, mesmo que ela só tenha sete anos e isso seja repugnante?

Ou ainda aquela parte em que a Rainha devora alegremente o fígado e os pulmões que pensa ser da criança? Ou quando a pequena invade o esconderijo de álcool dos anões? Ou quando o Príncipe insiste em casar com ela porque ele está apaixonado pelo corpo já sem vida da Branca de Neve? Ou aquela parte em que a Rainha dança nuns sapatos de ferro a arder até que cai morta no chão? As histórias para crianças não são adoráveis?

Quando foi a público no Comic-Con de 2011, antes de ser começado a filmar, a Branca de Neve e o Caçador foi descrito em quase todos as críticas como algo mais aproximado do original, deixando para trás o tradicional conto mais sentimentalista para algo mais violento. Mas voltando ao conto dos Irmãos Grimm, Schneewittchen Und Die Sieben Zwerge, donde vêm os detalhes acima descritos, é um conto cheio de sangue, cheio de ódio, e com algumas adorações pré-adolescentes muito questionáveis. Sem dúvida, A Branca de Neve e o Caçador é o que vai mais perto do conto dos Grimm do que outro qualquer que já tenha sido feito. Nós não podemos ser completamente verdadeiros à Branca de Neve sem um bocadinho de tortura.

“Eu acho que nós vamos fazer a história à maneira clássica,” diz Kristen Stewart, que faz de Branca de Neve. Ainda que, a conversar com a Empire nos Estúdios Pinewood, ela não se pareça mesmo com a versão mais clássica da personagem. O seu escuro e longo cabelo está apanhado num rabo-de-cavalo e está vestida com umas calças sujas, uma t-shirt e um casaco comprido que parece que foi à máquina para ser lavado a óleo. Nem saias flutuantes ou mesmo roupa que aperte.

“Eu acho que não sabia nada da Branca de Neve a não ser a versão da Disney, e essa versão difere muito do original que é muito mais sinistro e sangrento. Existem algumas mudanças para a nossa versão, mas em termos de quem ela é, que é muito mais inocente, eu acho que até estamos a manter a versão original da personagem.”

O guião de Evan Daugherty da Branca de Neve e o Caçador foi um dos mais populares em 2010, aparecendo na Lista Negra, uma colecção anual dos guiões mais gostados que ainda não foram para produção. Depois de Alice no País das Maravilhas de Tim Burton ter sido uma mudança nos clássicos de histórias para crianças em receitas de biliões nas bilheteiras, acabou por ser criado um subgénero muito apelativo: os clássicos para crianças que, vocês sabem, não são assim tanto para crianças. Este guião foi tão concorrido que foi vendido por 3 milhões, um grande preço para um guião só.

A história de Daugherty começa como a história dos Grimm, com uma Rainha Má que é consumida pela sua própria beleza e quando o seu espelho, uma espécie de uma versão mais estranha da Tyra Banks no America’s Next Top Model, lhe diz que a sua beleza foi ultrapassada, ela manda matar a sua enteada. A beleza eterna é a sua principal característica e deve ser mantida a todos os custos.

É aí que o guião se desvia um bocadinho do texto original. O Caçador, que supostamente tinha de matar a Branca de Neve, poupa a sua vida, mas torna-se uma espécie de mentor e treinador da rapariga, que é considerada pelos anões (esta versão conta com oito, em vez dos tradicionais sete) a pessoa que os pode libertar do reino malvado da Rainha. Depois segue-se uma luta para reclamar o trono e não aparece nada daquelas cantorias dos anões.

O guião foi parar, surpreendentemente, ao colo de um nome de um realizador que não conta com créditos nenhuns em filmes.

No set, Rupert Sanders, tenta ser o mais maduro que pode, um jovem, mas que aparenta ter uns quarenta anos e qualquer coisa, está calmamente no meio de uma floresta falsa que, apesar de estar coberta de ‘Neve’ (neve extrafina, segundo as caixas), está abafada. Anões de vários tamanhos estão pelo set (apesar de terem actores mais altos, como Ian McShane, Ray Winstone e Nick Frost, a fazer os papéis, todos têm duplos mais pequenos para as filmagens de corpo inteiro – incluindo um, com uma barba que emana a inconfundível voz de uma mulher), espadas agitam-se em direcção a nada, e a Rainha Má Charlize Theron está chateada por ter de apunhalar Chris Hemswort na cara (“Eu gosto de ti, não quero fazer isto”). Depois disto tudo, lá está Sanders, um homem a conduzir um trabalho de 200 milhões de que muito poucos fora do set poderão ter ouvido falar.

Como é que um realizador só com alguns trabalhos consegue um filme que tinha nove estúdios a concorrer? “Eu não sei bem, apenas consegui,” diz Sanders, desembaraçando-se de um monte de anões. “Eu fui ter com o Joe Roth, o produtor, e disse-lhe o quanto gostava da versão original e de como seria algo grandioso, e depois saí da reunião e ele queria que eu realizasse o filme.” Sanders tem vindo a trabalhar em anúncios e filmes pequenos há 12 anos, tendo começado com um anúncio da Tag Heur – American History X de Tony Kaye, e tem tentado começar a sua carreira nos filmes há anos (a maior parte do seu trabalho está em rupertsanders.com).

“Eu fiquei perto de realizar muitos filmes grandes, que foram sendo feitos, mas não tinha encontrado o filme perfeito até agora. Eu vi algo aqui que poderia ser algo fantástico. Aborda temas como a perda, o poder, a morte e o destino.” Ele conseguiu o elenco da Universal ao fazer um teste, mostrado no Comic-Con, para ver como seria o filme. “Foi impressionante, a forma como ele viu o filme,” diz Stewart. “Conseguíamos ver que o filme seria algo grande.”

Apesar de terem gostado muito do guião do Daugherty, Sanders fez algumas mudanças desde que começou a realizar. Hossein Amini, guionista, trabalhou com o guião, com Sanders a fazer força para que fosse levado para uma audiência mais velha. “Acho que a versão do Evans talvez fosse para uma audiência para pessoas mais jovens, e eu queria algo mais aproximado do conto dos Grimm e comecei a jogar com os temas da moralidade e o medo da moralidade… Esses são temas poderosos. Cada país no mundo todo tem a sua própria versão da Branca de Neve.”

Com nuances mais maduras, maior é também a escala. A produção teve que tomar grande parte do estúdio com sets imensos, um com um castelo inteiro, onde estiveram cavalos a passar por lá durante várias semanas (ainda continua aquele aromazinho).

No Comic-Con os produtores viram o Senhor dos Anéis como ponto de partida. Para a primeira vez enquanto realizador, Sanders levanta ainda mais a parada. “Apesar de esta ser a minha primeira vez, eu não sou novo na realização,” insiste. “Os realizadores de anúncios têm uma má recepção mas eu acho que existem escolas diferentes. Eu sempre fui interessado no guião e na história. É muito difícil contar uma história num minuto, e há sempre uma estrutura diferente ao contar uma história em duas horas, a gramática é a mesma. O Joe veio ver-me a trabalhar num anúncio para a DirecTV onde nós reconstruímos uma parte da batalha de Iwo Jima, e ele viu que eu conseguiria comandar este navio.”

"Ele é um rapaz impressionante,” diz Charlize Theron do seu realizador. “Ele esteve muito, muito aberto ao ter uma imbecil como eu a entrar e a fazer algumas coisas de risco. Alguns realizadores iniciantes, especialmente num filme deste tamanho, estariam assustados. Se estamos no mundo dos filmes independentes é mais fácil estar no controlo, mas fazer um filme deste tamanho para a Universal e estar ok comigo quando eu entro e digo, ‘Eu vou fazer referência ao Jack Nicholson no The Shining’, ou, “Eu acho que ela é a serial killer no Seven’? É preciso ter coragem.”

Sanders pode ser o comandante deste navio, mas o que chamou mais a atenção é a personagem principal. Vinda de um dos maiores franchises da história, Kristen Stewart tem feito fortunas. Por um lado, o Crepúsculo deu-lhe poder e significa que ela pode escolher qualquer filme que goste – só o nome dela chega para avançar com um filme. Por outro lado, a sua base de fãs conhece-a como a ‘protagonista romântica’ e ainda outro grupo que a conhece como “aquela rapariga do Crepúsculo, que eu detesto”. O seu próximo passo era provar que ela consegue liderar um filme que não tem uma base de fãs que está sempre a hiperventilar.

“A minha primeira reacção foi, ‘Nem pensar. Eu não volto a fazer filmes de franchising,’” diz Stewart, a tossir por causa de uma constipação de inverno. “Estou habituada a fazer filmes de pequena escala. O Crepúsculo foi a minha primeira experiência a essa escala, e nunca esperei que se tornasse em algo tão grande. Mas é estranho ver aquilo que nos chama…Não foi do género (fala com uma voz austera), ‘O que é que isto vai fazer à minha carreira?’ O filme é sobre problemas de identidade e enfrentar as coisas. Eu sou bastante impulsiva e isto prendeu-me.”

A Némesis de Stewart aparece na forma não muito apelativa de Charlize Theron, a Rainha Má cuja beleza é o seu poder e vai tentar roubar a beleza de todos aqueles que não se pareçam com a parte de trás de um autocarro. “Ela não é só a Rainha Má, ela tem um nome: Ravenna,” diz Theron, rindo-se alto. “Na verdade, eu acho que o facto de ela ter um nome é bastante importante. Eu não tenho interesse em fazer apenas de “má pessoa”. Eu fico intrigada pelo porquê de as pessoas fazerem a porcaria que fazem.”

No dia que a Empire foi ao set, Theron estava a fazer um discurso que parece fazer as intenções de Ravenna bem claras, roubando perversamente a sorte daqueles que morrem novos, que nunca vão saber a sua miséria e perda de verem a sua beleza e vitalidade todos os dias. “Ha. Esse discurso que viste é a única vez em que é dito isso,” ri-se Theron quando falámos mais tarde. “No original, esse é o tema, sobre ela ser tão obcecada com a sua beleza e com o envelhecer.”

Mas enquanto falámos disto, a nossa versão é sobre uma mulher cuja mãe impingiu nela o sentido de que se ela não for jovem e bonita ela nunca vai ser poderosa. Isto não é sobre querer ser apenas bonita para que goste apenas do que vê no espelho; é sobre a convicção de que para ela ser a melhor líder e ter o poder, ela tem de permanecer bonita. Como é que ela consegue isso? Ela precisa de algum estímulo. Por isso as pessoas têm de morrer.”

Um dos personagens principais, entretanto, é um personagem que mal entra na versão original. Se perguntarem sobre todos os personagens da Branca de Neve, só os mais entendidos se irão lembrar do Caçador. Ele tem uma parte reduzida, um papel que mal usou tinta na versão animada da Disney. Nesta versão, ele é a chave. Sanders explicou o aumento da presença do Caçador:

“Umas das melhores coisas no guião do Evan foi a criação deste personagem masculino. Como eu vejo isto, a Rainha é a morte e a Branca de Neve é a vida. O Caçador torna-se um intermediário entre os dois. Ele sofreu uma grande perda e ele traz a vida e a morte juntas para encontrar o seu equilíbrio, para que o mundo volte ao normal de novo. A Rainha parou a morte, por isso a natureza foi repelida e virou-se contra si mesma. As florestas ficaram negras, coisas que não se deviam estar a comer umas às outras estão – o mundo está uma confusão. Ele, sem saber ou por vontade própria, leva a vida à morte. Ele é uma parte muito importante do filme.”

Quem faz de Caçador é Chris Hemsworth, tornado uma estrela de cinema depois do sucesso de Thor. “Eu não posso dizer que tenha feito uma grande pesquisa sobre ele,” ri-se. “Como é que poderia? Eu só li o guião e gostei do que estava lá. Ele é um mercenário bêbado, um bocadinho de “alma perdida”, e que não sabe bem a missão a que foi forçado a entrar. E depois durante o filme ele encontra a luz neste mundo sombrio. E fica também um pouco mais sóbrio, o que é bom.”

Vocês provavelmente já sabem que a Branca de Neve e o Caçador não é a única Branca de Neve deste ano. Em 2011, havia uma discussão na qual a Universal e a Relativity Media lutaram para ver qual das Brancas de Neve saía primeiro que a outra. A última ganhou a batalha, lançando Mirror Mirror a 6 de Abril com realização de Tarsem Singh, Julia Roberts como Rainha e Lilly Collins como Branca de Neve. É justo dizer que o trailer de Mirror Mirror, com o seu número musical e a sua excentricidade, perdeu a favor do sombrio teaser da Branca de Neve e o Caçador.

“Eu acho que é óbvio que os filmes são diferentes,” diz Sanders, mesmo que tenham as Brancas de Neve como líderes de um bando de rebeldes. “Eu sempre soube que eles seriam diferentes e estou contente por serem tão diferentes como são. Ninguém quer estar envolvido numa batalha de filmes. Nós queremos ser originais… Não são mesmo o mesmo filme, de todo. Julgo que, de alguma forma, nos ajudou. Já existem pessoas a discutir o filme.”

A ‘Branca de Neve e o Caçador’ aparece num verão ocupado, ensanduichado entre The Avengers, Prometeus e Spider Man e Batman. Estar nesse grupo é algo muito especial. E nenhum estúdio investe milhões num filme que não espere muito dele… Apesar de a resposta a um potencial franchise é posta de parte por todos a quem a Empire pergunte. O que a Branca de Neve e o Caçador pretende é todos aqueles que tenha mais de 12 anos, e especialmente, homens, vejam que a Branca de Neve é mais do que animais nossos amigos e finais românticos.

“Eu percebo isso,” diz Sanders. “Isto não é uma sequela. Não é um spin-off de uma personagem de desenhos animados e tem um título que as pessoas conhecem, mas eu acho que se virmos o trailer, vemos um filme completamente diferente. Eu não acho que se pareça com algum que já tenha visto até agora. E há algo nestas histórias que são universais, que são para todas as idades. Há uma razão para ainda serem contadas séculos depois,” E todos os contos de fadas têm de ter um final feliz. Não é?

 

 

Tradução e adaptação: TP (por Ana Galrão)
via | Fonte



And às 12:39 | link do post | comentar

1 comentário:
De Francisca S. a 4 de Abril de 2012 às 13:09
Estou ansiosa pelo filme!
Confio imenso no trabalho da Kristen! Pelo menos como Bella ela nunca me desiludiu (e já vi outros papéis excelentes dela).W
:)


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