Terça-feira, 18.10.11

"Into The Moon"

Capítulo 20 - A Birra

 

''O desespero é uma quimera, o que o torna tão semelhante à esperança.''
Sandor Petofi

 

 

 

 

Dois dias antes da nossa partida já havíamos conversado com Nessie sobre a viagem. Apesar de apreensiva, ela aceitou bem. O que não estava nos nossos planos, nem Alice pôde adivinhar, foi o que aconteceu no dia anterior à viagem. Estava tudo preparado para partirmos na noite do dia seguinte. Nessie estava ansiosa desde que se levantou de manhã: saltou da sua cama para a nossa, enroscando-se no nosso meio. Brincámos com ela, voltámos a conversar sobre a viagem e sobre o que ela iria fazer na nossa ausência quando ela nos surpreendeu com um pedido muito peculiar.
- Eu quero ir convosco... - murmurou.
- Nessie... - começou Edward um pouco hesitante – Pipoca não podes porque ficas melhor aqui. Aquilo é uma viagem de grandes. Ela assentiu com a cabeça sem esperança, aceitando a sua derrota. Depois de dar-lhe um banho de espuma, que ela adora, vesti-la com o seu vestido favorito, e Edward ter-lhe preparado o pequeno-almoço ela continuava conversadora mas cabisbaixa.
Mais tarde, na casa grande, e não conseguindo conter-se mais, Nessie irrompeu numa torrente de lágrimas agarrada ao pai. Edward ficou um pouco embasbacado, ninguém esperava por isto, e tentou confortá-la.
- Nessie... – murmurou afagando-lhe os seus lindos cabelos acobreados.
- Desculpa pai... eu não devia ter deixado a tia Alice no parque naquele dia... des-cul-pa-paa... - murmurou aos soluços. Além de Edward também eu não sabia o que fazer face à reacção da pequena. A única maneira era reconfortá-la, com palavras confortadoras, ternas. Mesmo assim parecia-me que não iria ser uma tarefa fácil. Afinal, a teimosia estava no nosso sangue.
-Meu amor a culpa não é tua. – disse Edward lendo-lhe os pensamentos.
- É É! Senão porquê que vocês vão? – interrogou. – É por minha causa!
- Não tens culpa nenhuma princesa. A mãe e o pai vão apenas conversar com o Román. Nada disto é por tua causa. – mentiu.
- Mas vocês vão...e se ele for mau? E se vos fizer mal? E se... - proferiu esta frase com muita dificuldade – e se vocês não voltarem? – rugiu entre lágrimas e soluços.
Ela estava desolada e eu não sabia o que fazer.
- Fofinha nós voltámos, claro que sim! – disse beijando-lhe as faces agora vermelhas e salgadas. – Nós somos tantos meu amor. Nem precisas de ficar preocupada. Nós vamos voltar muito rápido, vais ver.
- É Nessie, a mãe tem razão. – interveio Edward.
- Eu quero ir convosco... - insistiu.
- Não Nessie, isso não. – afirmou Edward.
- Meu amor, não podes. – concordei.
- Mas eu quero! – gritou. Ficámos surpreendidos, era a primeira vez que ela fazia... birra. Ou talvez não, pensei. Isto poderia não ser exactamente uma birra de criança. Ela era muito desenvolvida para a idade que tinha. Apercebi-me, subitamente, que ela tinha uma ligeira noção do perigo.
- Eu quero! Eu quero ir com vocês!! – insistia. O resto da família aproximou-se, preocupados pelos gritos dela. Era, decididamente a primeira vez que a viam neste estado.
- Eu quero! – gritava e esperneava no colo do pai.
Edward e eu entreolhámo-nos, reflectindo por segundos nessa hipótese. Mas não, não poderia ser. Era demasiado perigoso expô-la assim. E se lutássemos? Como poderia eu lutar, sem estar preocupada e quieta protegendo a minha filha com o meu escudo? Deixei que Edward lesse os meus pensamentos. Ele assentiu com a cabeça, em concordância.
Neste momento toda a família estava ao nosso redor, tentando reconfortar Nessie com palavras mágicas como gelado, parque, feira de diversões, mas ela não se deixava enganar.
- Papá, por favor, por favor leva-me!!! – suplicou agarrando o rosto de Edward com as suas mãozinhas pequeninas e desesperadas, prendendo os olhos dele nos dela.
- Princesa...não podes. Olha ia ser muito aborrecido para ti, meu amor...
- Mas eu quero!!
- Nessie... - murmurou o pai.
Instintivamente ela olhou para mim. Os seus olhos suplicantes lacrimejavam sem cessar, num desespero de tal maneira que mostravam uma dor profunda neles. Eu não aguentava vê-la assim. Aliás acho que ninguém naquela sala aguentava. De imediato deixou os braços de Edward e saltou para os meus.
- Mãe por favor! Leva-me contigo. Por favor mamã!
Ela subiu para os meus braços agarrando o meu pescoço com as suas mãos minúsculas mas firmes e decididas. Obrigou-me a olhá-la nos olhos e mostrou-me o seu desespero com imagens que passavam na sua mente: ela via-se sozinha, perdida numa floresta... para sempre. Em seguida voltou a suplicar.
- Mamã leva-me contigo!
Abracei-a, sem saber o que dizer mais para que o seu desespero tivesse fim. Não a poderia levar comigo, embora inicialmente tenha pensado que seria o melhor a fazer. Mas como poderia ir e deixá-la assim em prantos?
...
Nessie adormecera no meu colo de tão cansada que estava de chorar. Parecia um anjinho a dormir nos meus braços. O seu rosto inocente, infantil, iluminado tinha feições de um pequeno anjo daqueles que se vendem na época natalícia. Os seus caracóis cor de bronze pairavam no meu colo.
- É incrível como ela é parecida contigo. - disse Edward.
- Mas do que estás realmente a falar? – perguntei. Como é óbvio ele não se referia às semelhanças físicas.
– Quero dizer... ela tem tanto de ti, principalmente na sua maneira de ser. Acho que isso não me surpreende. Bella lembras-te quando me pediste para ficar fora da luta contra o exército de recém-nascidos criado por Vitória? - inquiriu o meu marido olhando nos meus olhos. - Para que ficássemos juntos?
Sorri. Realmente ele tinha toda a razão. As minhas memórias dessa época eram um pouco baças, mas lembrava-me delas. - Sim, estou a ver. Ela está a fazer connosco o mesmo que eu fiz contigo.
- Sim. – assentiu o meu amor sorrindo.
- Edward eu acho que ela não deve ir. Não é que eu queira que ela não vá... e custa-me tanto vê-la assim... Então depois de hoje. Ela nunca fez isto.
- Pois não... eu próprio fiquei confuso. Não conseguia pensar direito enquanto ela suplicava, olhando nos meus olhos, para que a levássemos connosco. Ela é, sem dúvida, poderosa.
- É verdade. - Poderosa e linda. – disse olhando para ela nos meus braços.
- Não sei se sou capaz de ir e deixá-la assim... - murmurou o meu amor afagando a minha face.
Não lhe respondi. Não tinha resposta para aquilo. Como é possível partir e deixar assim alguém... uma parte de nós?
Permanecemos na casa grande o resto do dia. Rosalie e Alice tentaram distrair Nessie quando ela acordou. Mas ela não se deixava enganar. Andou sempre em volta de mim e do pai, com receio que partíssemos sem a avisar.
- Meu amor nós nunca faríamos isso. – disse Edward lendo-lhe a mente. Ela assentiu mas, mesmo assim, não arredou pé da nossa beira. Teimosa, tal como a mãe, pensei. Edward sorriu ao ler o meu pensamento.
Mas a nossa partida estava-se a aproximar. Era nessa noite. Embora não tivesse chorado nem feito mais nenhum pedido, Nessie permanecia ansiosa e até mal-humorada. Era também a primeira vez que a víamos mal-humorada. E nunca tinha recusado uma visita ao parque. Esta viagem estava, literalmente, a afectá-la. E muito.
- Não! Já disse que não quero! – rugiu à tia Rosalie.
- Nessie! – disse Rose estupefacta pela reacção e pelo tom da pequena. De imediato olhou para nós como que reclamando pelo nosso silêncio. O que quer que fosse que Rosalie estava a pensar deixou Edward ligeiramente nervoso. O suficiente para lhe murmurar:
- Tem calma. Ela estava a passar por um momento difícil. Tens de compreender...
- Mas não é deixando-a falar desta maneira que a estão a ajudar... - respondeu Rose.
- Tem calma. A miúda está desolada. – disse Emmett justificando a atitude de Nessie. – Ela não o sentiu.
- Ai senti senti! A tia perguntou-me um milhão de vezes se quero ir ao parque, ao shopping, aqui e acolá. Eu já disse que não! – atirou Nessie visivelmente irritada.
Rosalie ficou destroçada perante o comentário de Nessie. E eu estava completa e inutilmente surpreendida com a minha filha. De onde veio esta intolerância toda? Ewdard apercebeu-se da mudança do meu humor.
- Nessie anda cá. – pedi. Ela chegou à minha beira e ia preparar-se para saltar para o meu colo. Pela primeira vez, não deixei e disse-lhe: Pede desculpa à tia Rose. Ela ficou triste com o que tu disseste.
- Mas ela estava a ser chata! Eu já disse que não vou a lado nenhum com ninguém!
- Nessie – interveio Edward. – já percebemos que não queres sair de casa. E nós respeitámos a tua vontade. Agora faz-me um favor e vai pedir desculpa à tia Rose.
- Peço mais tarde agora estou a terminar o meu desenho e não posso parar se não esque...
- Agora. – interrompeu Edward num tom bastante firme.
A minha filha olhou para mim como que a avaliar a minha reacção. É típico, já me tinham avisado que as crianças fazem este tipo de coisas: auxiliar-se de um dos pais para se escapar. No entanto eu e Edward havíamos conversado sobre isto e concordamos com tudo o que o outro fizesse. Afinal seria para o bem dela.
- Nessie faz o que o pai pediu.
A pequena saltou até o primeiro degrau das escadas e gritou sem qualquer tipo de sinceridade ou verdade gritou:
- Tia desculpa! – e depois murmurou algo como – Pronto já pedi.
Ficámos especados a olhar para ela. Mas onde é que ela aprendeu a agir assim? Aqui em casa nunca assistiu a nenhuma situação similar. Ela continuou a fazer o seu desenho na mesa de jantar vintage de Esme e a cantarolar enquanto o fazia. Olhei para Edward. Percebi, pelo olhar dele, que ela sabia que o seu comportamento não era razoável e achava que cantar iria distrair-nos da sua atitude com a tia. Apesar de temer ter que tomar uma atitude mais austera, fi-lo.
- Nessie vai para o teu quarto. – murmurei.
- Ah?
- Vai para o teu quarto e só sais de lá quando decidires pedir desculpa com sinceridade à tia Rose.
- Mas foi ela que...
- Agora. – interrompi firmemente olhando nos olhos dela.
Fiquei desolada com a carinha dela olhando para mim quando disse aquilo. Mas não poderia deixar que ela falasse assim com alguém. Não está certo. Independentemente de tudo o resto. Renesmee, irritada, atirou os lápis de cor para cima da mesa com alguma força.
- Mas porquê que vocês são tão maus para mim?! – gritou e subiu os degraus saltando de dois em dois. – Estou chateada! – atirou e fechou a porta com força.
- Bem... - murmurou Emmett.
Sentia-me completamente consternada por tê-la mandado para o quarto. Na verdade pu-la de castigo. Nunca pensei ter de o fazer e, muito menos, que me custasse tanto.
- De qualquer forma nós vamos falar com ela daqui a pouquinho. – murmurou Edward, abraçando-me, depois de ler o meu pensamento.
- É melhor que falemos, para ela compreender o que fez mal. – concordei. O facto de estar fechada no quarto não iria ensinar-lhe nada com certeza.
...
Passámos a tarde na sala a conversar sobre trivialidades. Eu bem que tentei concentrar-me na leitura de um livro mas sem sucesso. A birra da Nessie vinha à minha mente sempre que tentava distrair-me com algo. Edward notou a minha inquietação e murmurou beijando-me a testa:
- Queres ir lá em cima agora falar com ela?
- Sim, claro.
- A ver se descansas essa mente. – comentou o meu amor com um sorriso enviesado.
- Como é que ela está? – perguntei enquanto subíamos os degraus.
- Está mais calma... e quer pedir-nos desculpa. Ela sabe o que fez.
- Claro que sabe. Isto tudo está a afectá-la muito. Não sei o que podemos fazer para diminuir este caos.
- Neste momento fazemos o que podemos. – disse o meu amor afagando a minha mão. – E acho que nos estamos a sair muito bem. Ela vai ficar bem.
- Espero que sim...
...
O silêncio do quarto era interrompido vagamente pelo cantar dos pássaros nas proximidades da floresta. Deitámo-nos na sua cama estreita deixando-a ficar no nosso meio agarrada aos dois. Tal como Edward dissera, ela tinha perfeita consciência do seu comportamento assim como de o que a levara a tê-lo.
- Eu não quero ficar aqui. Quero ir convosco. – voltou a insistir, mas o seu tom de voz denotava desesperança.
- Meu amor nós prometemos voltar o mais rápido possível. Se for preciso vimos a nado. – brinquei.
- E se vos magoarem?
- Pipoca, nós não vamos magoar-nos. Vamos apenas conversar com o Román. Não precisas ficar preocupada. Tudo vai correr bem e, mais importante, quando te aperceberes nós já vamos estar cá.
- A sério?
- Sim, meu amor. – respondemos em uníssono o que fez com que os três explodíssemos em gargalhadas.
- Posso dormir com vocês esta noite? – perguntou a pequena com algum embaraço.
- Sim meu amor. Podes sempre que quiseres. – respondi beijando os seus cabelos cor de bronze que cheiravam a flores.
Assim fomos para a nossa casinha de campo, dei um banho a Nessie, vesti-lhe o seu pijama favorito e os três deitámo-nos. Contei-lhe uma história de aventuras pela floresta com um final feliz e Edward cantou a sua canção de embalar até a nossa filha finalmente adormecer. Talvez ela só precisasse disto, de se sentir segura de novo. Acariciei as suas bochechas perfeitamente rosadas por muito tempo. Durante o resto da noite, o meu amor e eu trocámos carícias e olhares tão profundos que qualquer palavra que pudesse ter sido dita perderia o seu significado.

 



Constança às 22:04 | link do post

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