Quinta-feira, 10.11.11

"Into The Moon"

Capítulo 23 - Monstruosidades

 

 

 

 

 

A porta dava para um quarto do tamanho de uma suite. A decoração era ultrapassada, existia uma velha cómoda onde uma penteadeira, assim como frascos de perfume antigos, permaneciam imortalizados no tempo e naquele espaço. Fez-me lembrar aquelas casas de bonecas antigas, onde tudo era decorado ao pormenor, sem qualquer espécie de utilidade pragmática, apenas a adoração pelo passado.
No momento em que ouvi o gemido de Kate, apercebi-me de que havia algo mais no quarto que merecia a minha atenção. E partir daqui, tudo mudou.

- Este tipo é completamente marado! – exclamou Garrett.
- Calma! – pediu Eleazar.
- Vocês não entendem... – murmurou Román com algum nervosismo.
- Tens razão, não entendemos... – continuou Garrett. Kate respondeu-lhe com uma cotovelada.
No centro do quarto, deitado numa cama clássica enorme, estava um corpo imóvel com um aspecto completamente horrendo. Como se estivesse em decomposição, no entanto, não detectei nenhum mau odor proveniente dele; era mais a sua estranha coloração, um misto de verde com um tom de violeta. Há quanto tempo ele estaria assim?
- Eu pensei... - disse Román olhando para Edward, como se procurasse algum tipo de compreensão nos olhos dele – Pensei que compreendesses... Quero dizer, tu passaste pelo mesmo...
Edward permanecia em silêncio. Inicialmente não consegui compreender o seu silêncio, nem o seu semblante, nem os seus olhos. O rosto do meu amor permaneceu, durante algum tempo, indecifrável.
- Tu, mais do que ninguém deverias compreender porque fiz isto! – rugiu Román irritado com o silêncio de Edward. – E se fosse contigo? O que farias?! É muito fácil julgar quando tu tiveste sorte! E...
- Pára. – interrompeu Edward. – Não te atrevas a falar por mim. Estás enganado. Muito enganado. Eu nunca, em circunstância alguma, faria isso à Bella.
- Como podes dizer isso?! Só estou a tentar proteger o que é meu...
- Foste egoísta. E não tentes comparar a Sophie à Bella. Foram circunstâncias diferentes. – disse Edward com um rosto sério. – Tempos diferentes.
- EGOÍSTA???? – rugiu Román de novo cheio de cólera. Eu estava a preparar-me para defender Edward colocando-me entre eles os dois, mas o meu marido estendeu-me uma mão pedindo-me que esperasse.
- Tu não foste capaz de a deixar ir. – respondeu Edward tentando manter uma postura calma. - Ao invés disso prendeste-a no escuro, entre dois mundos só para que pudesses ficar perto dela! Isso não é amor... isso é loucura.
- Tu és um hipócrita! – rugiu Román enraivecido.
Edward colocou-se em posição de ataque.
- Ei! Ei! Calma! – interveio Carlisle.
- Aquela que tu dizes ser a razão da tua existência está presa num sofrimento inimaginável. – insistiu o meu marido com uma voz dura.
Nesse momento percebi. Percebi porque estávamos ali. Percebi o que fazíamos ali naquele quarto. Percebi o que representava aquele cadáver prostrado naquela cama. Aquele corpo débil, obscura era de Sophie. Morta. Uma sombra do que alguma vez foi. A sua silhueta era perfeitamente delineada, os seus olhos fechados, o seu cabelo era negro como a pólvora. A sua expressão era grave, e parecia que todos os seus músculos estavam endurecidos... de sofrimento.
- 'Meu enviaste-a para o inferno, literalmente. – apontou Garrett instintivamente.
- Cala-te! – sussurrou Kate.
- Oh, 'tou tramado...
- Deixaste-a entre a vida e a morte. - continuou Edward.
- Não. Entre a morte e a verdadeira morte. – interveio Carlisle.
- Eu amei-a como nunca amei ninguém! E amo! Só preciso que alguém me ajude... - gritou Román em pleno sofrimento. E a sua voz desvaneceu.
- Ajudar em quê? – perguntou Carlisle.
- Eh pa isto aqui é tudo muito marado... - voltou a exclamar Garrett visivelmente alarmado com o discurso de Román.
- Que quieres decir con ayudarte hombre?! Vamonos habla! – ordenou Eleazar num tom autoritário.
- Ele quer ressuscitá-la. – explicou Edward num tom pensativo.
As reacções foram muitas. Quase todas de surpresa e de repugnação.
- Quê?
-Ah?
- Acordar uma morta? – perguntou Emmett estupefacto.
- Mas isso nem é possível! – murmurou Kate.
- Olha lá tu já viste o filme do Frankenstein?! – perguntou Garrett sem pudor.
De imediato lembrei-me, não do filme, mas sim do livro. Estranho já que o tinha lido há uns bons anos, quando ainda era humana. A velha história de um cientista solitário que cria uma poção mágica de químicos e recolhe corpos de um cemitério, com o objectivo de criar um ser a partir de partes mortas de cadáveres humanos. Ele consegue o seu feito, mas o resultado só poderia ser desastroso como foi a sua criação: nasce uma criatura de aspecto horrível, rejeitada por toda a sociedade, até mesmo pelo seu próprio criador.
- Ela não está morta! – insistia Román completamente desesperado.
- Meu está, está. Olha para aquilo! – disse Garrett apontando para o corpo dela. - Parece uma beringela, metade verde metade roxa...Credo! Até eu estou impressionado.
Olhámos todos para ele. E se não estivéssemos num contexto tão dramático, desataríamos a rir às gargalhadas com a sua observação. Só ele poderia dizer uma coisa daquelas numa situação tão delicada. Nesse momento tive a certeza absoluta de que Kate nunca ficava entediada com ele. Irritada sim, entediada nunca.
- Ela vai acordar... ela vai viver! Só preciso da vossa ajuda e seremos uma família como sempre deveríamos ter sido! - Román tentava convencer-se a ele próprio. – Carlisle, tu és médico, tu podes ajudar-me!
A expressão de Carlisle era bastante pensativa, mas também enigmática e... triste.
- Román lamento dizer-te isto mas colocaste-a numa posição muito delicada. Ela não pode ficar aqui contigo, nem como humana nem como vampira. Tu decidiste deliberadamente não a deixar ir.
- Mas...
- Há 76 anos que ela sofre, sente uma dor excruciante, como se estivesse a ser queimada viva. – disse Edward. - Nós só sentimos isso durante, no máximo, três dias. Esse é o tempo limite para dar-se a transformação completa.
- Tu deixaste-a a meio, por assim dizer. Ela permanece neste tormento há demasiado tempo. Tenho a certeza absoluta de que tu não queres isto para ela. – completou Carlisle.
- Román sabes que ele tem razão. Apenas não o queres ver. – Interveio Tânia.
- Eu não a vou perder!
- Lamento muito Román. A sério que lamento, mas não tens outra hipótese. – disse Carlisle. Edward e eu entreolhámo-nos estupefactos com aquilo.
- Então... esqueçam isto tudo! Saiam daqui! Se não pretendem ajudar-me, irei continuar à procura de quem o faça!
- O quê? Pretendes deixá-la assim para sempre? – perguntou Kate surpreendida.
- Ela sente dor! – notou Tânia exasperada.
- Então já não está assim há 76 anos? Mais dia menos dia... mais século menos século... Ficar pior do que está é difícil... - Garrett continuava com a sua filosofia de bolso.
- Parece mesmo uma beringela... - concordou Emmett baixinho, mas consegui ouvi-lo e, tenho a certeza de que todos os outros também.
- É não é? – respondeu Garrett. – Uh! Acho que me dá naúseas.
- Oh vá lá não sejas maricas! – disse Kate sorrindo.
- Eu não 'tou a ser nada disso! Lá estás tu outra vez! Diz-me que não olhas para a noiva-franskenstein e não concordas?
Kate observou por uns segundos e assentiu com a cabeça – Lá nisso tens razão.
- Como e que alguém...consegue gostar...disto? – perguntou Jasper olhando para o corpo também.
- Tou'ta dizer: este tipo é marado! – insistiu o parceiro de Kate.
...
Carlisle, que tinha trazido consigo a sua maleta de médico, aproximou-se do corpo de Sophie. - Reconheço que tenho receio de tocar-lhe... nunca vi nada assim.
Edward aproximou-se também examinando o seu rosto.
- Ela não fala. Mas penso que consegue sentir a minha presença. – informou Román mais tranquilo.
- A tua e a de qualquer um. – explicou Edward friamente. – É como se ela estivesse aqui, no entanto, não consegue mexer-se. Está presa na escuridão.
Acerquei-me da cama e de Edward. Não me sentia confortável com ele não estar perto de mim. Também eu fiz um exame rápido ao aspecto dela. De perto parecia que as contusões que povoavam a sua pele eram mais disformes, mórbidas. Aí olhei para ele. Parecia que chorava. Senti tristeza pelo semblante infeliz de Román. Ele realmente amava-a, tanto, que não tinha conseguido perdê-la para sempre, mesmo que tenha sido exactamente isso que aconteceu a Sophie. Foi então que as palavras saíram da minha garganta como se eu nem as tivesse reflectido. Nem nas próprias palavras, nem nas consequências que elas iriam custar-me.
- Ela está num espaço sozinha... como se estivesse submersa algures num lugar longínquo, escuro, sem vida. A única coisa que sente é apenas dor. É um tormento de tal forma que só queremos ser salvos... ou morrer para sempre.
As consequências das minhas palavras surgiram rapidamente. Edward olhou para mim estupefacto, tal como eu havia previsto.
- Bem eu agora não tenho aqui o equipamento necessário. – disse Carlisle denotando o choque no olhar de Edward.
- Do que precisa? – quis saber Román cheio de esperança. – Arranjo seja o que for preciso para ela... viver de novo.
- Román nunca, em tempo algum, vi ou tive conhecimento de algo assim. Tenho de estudar muito bem o caso da Sophie. Se a poder ajudar, claro que irei fazê-lo. Mas tu sabes que as hipóteses dela são muito, muito remotas.
- Yo diría mismo que imposibles... - murmurou Eleazar.
Nem as palavras de Carlisle interromperam o olhar grave que Edward cravou em mim desde que proferi aquelas palavras. Os seus olhos espelhavam não raiva, como eu havia pensado, mas uma cólera lenta, como lenha a arder à espera do seu derradeiro fim. Não conseguia desviar os meus olhos dos dele. Eram tão penetrantes, esotéricos, que me cegavam o entendimento. Como se estivéssemos só nós os dois no quarto, sem mais nada que prestar atenção à nossa volta senão um ao outro.
Está claro que uma discussão iria rebentar, mas não agora, não ali.

- Bem hoje não há mais nada que possa fazer... - murmurou Carlisle.
- Amanhã por favor voltam? – pediu Román.
Edward assentiu com a cabeça.
No caminho para casa Edward não proferiu uma palavra. Aquele silêncio de gelo entre nós estava, literalmente, a matar-me por dentro. Queria falar-lhe, pedir-lhe desculpa, explicar-lhe que apenas o quis proteger. Mas sabia que nada disso iria adiantar neste momento. Talvez fosse melhor esperar que a neura lhe passasse. Limitei-me a seguir os seus passos, junto a ele, mesmo sem trocarmos olhares ou palavras. Algum dia teria de lhe contar o que se passou durante a minha transformação. Está claro que nunca quis que fosse desta maneira, muito menos num espaço repleto de pessoas. Mas, perante o olhar abatido de Román, apenas despejei as palavras, sem realmente ponderar o que elas iriam custar emocionalmente a Edward.
O ambiente na casa que alugámos também estava tenso, pesado. A verdadeira história de Román tinha-nos perturbado a todos de diferentes formas. Carlisle, Eleazar e Edward discutiram formas de tratamento ou alguma técnica para reverter o processo.
Eu refugiei-me no nosso quarto, com o pretexto de ter que arrumar as roupas. Mais tarde, Edward entrou devagar. Decidi acabar com aquele doloroso silêncio.
- Edward este silêncio está a dar cabo de mim... e de nós. Por favor grita comigo, berra, parte alguma coisa, mas reage. – pedi. - Não aguento mais ver-te assim... não pareces tu. - ele não respondeu, apenas trocou um olhar profundo durante dois ou três segundos, que foi o quanto durou o meu discurso. Mas nem por isso desisti:
- Eu sei que errei ao mentir-te... escondi-te a verdade. E lamento, lamento muito Edward. Tens toda a razão em estar furioso comigo. Mas foi para te proteg...
- O quê? – deteve-se. – Tu pensas que estou assim porque estou zangado contigo?
- E não estás?
- Zangado?
- Edward!!! – sentia-me irritada.
- Sim estou... mas não contigo!!!
- Como assim? – perguntei com cuidado.
- Não quero falar agora. Não podemos. Temos que preparar tudo para amanhã.
- Edward!!
- Bella agora não. Não posso. Nem consigo.– a sua voz era mais tranquila, os seus olhos mais doces. - Mais tarde falámos. - e virou costas voltando para junto de Carlisle.

 



Constança às 22:00 | link do post

De Sarah Cullen a 10 de Novembro de 2011 às 22:21
Fiquei verdadeiramente chocada. Nunca me passaria pela cabeça que ele escondesse o corpo de uma mulher à 76 anos, entre humana e vampira... Ainda estou sem palavras...
O Edward ao saber da dor que a Bella passou durante a transformação deve ter ficado mesmo enraivecido com ele próprio, por a ter deixado a sofrer tanto.

O capítulo está óptimo como sempre e continua a escreve-la.

Beijinhos


De Sun a 10 de Novembro de 2011 às 22:31
Oh Sarah agora eu estou preocupada...pareces mesmo chocada rapariga...

Agora o Edward vai ter que lidar com isto, não só ele mas também a Bella. Ambos vão ter que lidar com o passado e com o que poderia ter sido uma versão muito mais dramática da sua história.

Muito Obrigada pelos teus comentários Sarah ;)

Um Beijinho Grande (espero que recuperes do choque...)


Sun ^^)



De Sarah Cullen a 10 de Novembro de 2011 às 22:42
Eu recupero não te preocupes. Não não fazia a mínima ideia de que fosse um mulher naquele estado, quase morta, que eles fossem encontrar.

Beijinhos e obrigada pela preocupação! :)

E continua a escrever. É uma ordem! :p


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